Muitas pessoas acreditam que atraímos pessoas com o mesmo nível de trauma emocional.

Muitas pessoas acreditam que atraímos pessoas com o mesmo nível de trauma emocional. No entanto, o que realmente ocorre é que indivíduos que passaram por traumas tendem a ter maior facilidade em demonstrar empatia por aqueles que também sofreram. Isso não significa que o trauma de uma pessoa será agravado ou curado pelo contato com outra pessoa, seja ela traumatizada ou não. Da mesma forma, uma pessoa sem traumas que consegue ser empática com quem sofreu não será necessariamente afetada ou capaz de ajudar efetivamente.

Infelizmente, a crença de que atraímos pessoas com o mesmo nível de trauma emocional pode perpetuar estigmas semelhantes aos que existiam em relação aos leprosos, doentes mentais e pessoas com deficiências ao longo da história. A psicologia, por sua vez, sugere que relações disfuncionais podem exacerbar os sintomas individuais, mas isso não quer dizer que pessoas com traumas são mais propensas a ter relacionamentos disfuncionais. Até o momento, desconheço pesquisas que comprovem essa ligação.

Acredito que relações disfuncionais estão mais associadas a pessoas com menor capacidade de adaptação a novas condições ou a indivíduos com personalidades voláteis, que podem, de fato, tornar as relações mais instáveis. Por exemplo, uma pessoa que está bem consigo mesma pode, em determinado momento, desejar viajar. Essa mudança pode temporariamente tornar disfuncional uma relação que antes era funcional, e isso pode ter consequências positivas ou negativas.

O problema de aderir à crença de que atraímos pessoas com o mesmo nível de trauma emocional é que isso subestima a importância do meio e das escolhas individuais, algo que é central no positivismo e nas terapias cognitivas. Uma pessoa com pensamentos mais rígidos e boa autoestima pode manter uma relação funcional por mais tempo, sem que o meio afete sua percepção de si mesma. No entanto, como diz o ditado: “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

O ponto que quero destacar é que a crença de que atraímos pessoas com o mesmo nível de trauma emocional pode, na verdade, tornar as relações mais perigosas e as pessoas mais vulneráveis do que elas imaginam. Em alguns casos, pessoas com baixo nível de trauma emocional podem causar mais disfunção em um relacionamento do que aquelas com traumas significativos. Além disso, é importante reconhecer que todos nós possuímos traumas, que variam em intensidade para cada indivíduo, e que muitas vezes nos identificamos com nosso ideal de trauma. Portanto, ao afirmar que atraímos pessoas com o mesmo nível de trauma emocional, corremos o risco de superestimar ou subestimar nosso próprio trauma de maneira superficial.

A crença de que atraímos pessoas com o mesmo nível de trauma emocional é uma ideia que, apesar de popular, pode levar a mal-entendidos e generalizações prejudiciais. Essa noção, frequentemente repetida em círculos populares e até em algumas abordagens pseudocientíficas, parece sugerir que pessoas com traumas se atraem mutuamente devido a um reconhecimento inconsciente do sofrimento alheio. No entanto, uma análise mais cuidadosa à luz da psicologia sugere que essa crença pode ser simplista e potencialmente perigosa.

Em primeiro lugar, é importante destacar que pessoas que passaram por traumas podem, de fato, demonstrar maior empatia e compreensão com aqueles que também experimentaram dor e dificuldades. Essa empatia pode facilitar conexões e criar laços de solidariedade e apoio mútuo. A psicóloga Judith Herman, em seu livro “Trauma and Recovery”, explora como o reconhecimento do trauma no outro pode ser um passo importante no processo de cura e na construção de comunidades resilientes. No entanto, essa capacidade de conexão não significa, necessariamente, que as pessoas estejam predestinadas a se relacionar apenas com outras que compartilham níveis semelhantes de trauma. Tal interpretação pode levar à patologização das relações humanas e à perpetuação de estereótipos danosos.

Além disso, a crença de que atraímos pessoas com o mesmo nível de trauma pode ser comparada à maneira histórica como a sociedade lidava com doenças estigmatizadas, como a lepra ou doenças mentais. A analogia entre essa crença e o tratamento histórico de pessoas marginalizadas ressalta o perigo de criar categorias de exclusão baseadas em estados emocionais ou psicológicos. Na história, os leprosos eram isolados, não por serem contagiosos, mas por medo e ignorância. De forma semelhante, a crença em atração baseada em trauma pode levar à segregação emocional, onde indivíduos começam a evitar relacionamentos com aqueles que julgam não estar “em seu nível” emocional, perpetuando um ciclo de alienação e solidão.

Outro ponto a considerar é a relação entre traumas e disfunções nos relacionamentos. Embora seja verdade que relações disfuncionais podem exacerbar sintomas individuais, não há evidências robustas de que pessoas com traumas são mais propensas a se envolver em relações disfuncionais. Como aponta o psiquiatra John Bowlby, em sua teoria do apego, as dinâmicas dos relacionamentos são complexas e influenciadas por uma variedade de fatores, incluindo estilos de apego, padrões familiares e circunstâncias sociais. Atribuir disfunções exclusivamente à presença de traumas subestima a diversidade de experiências humanas e as múltiplas formas de adaptação e resiliência que as pessoas podem demonstrar.

As terapias cognitivas e comportamentais, especialmente dentro do paradigma do positivismo, enfatizam a importância do ambiente e das escolhas conscientes na formação de relações saudáveis. Aaron Beck, um dos pioneiros da terapia cognitiva, argumenta que as crenças e pensamentos rígidos, como a crença em atrair pessoas com o mesmo nível de trauma, podem limitar a capacidade de um indivíduo de formar relacionamentos funcionais e satisfatórios. A ideia de que o meio ambiente é um fator determinante nas relações é um dos pilares da psicologia cognitivo-comportamental, que busca capacitar os indivíduos a modificar seus padrões de pensamento para melhorar suas interações sociais e emocionais.

Entretanto, o perigo maior da crença em atração por trauma emocional reside na vulnerabilidade que ela pode gerar. Pessoas que acreditam fortemente nessa ideia podem se tornar hipervigilantes, interpretando qualquer dificuldade no relacionamento como uma confirmação de seus próprios traumas, o que pode criar um ciclo autoperpetuante de desconfiança e retraimento. Paradoxalmente, indivíduos com baixo nível de trauma emocional, mas com crenças rígidas ou comportamentos voláteis, podem acabar causando mais disfunção em suas relações do que aqueles com traumas significativos que têm maior consciência de si mesmos e de seus impactos nos outros.

Por fim, é crucial reconhecer que todos nós possuímos traumas, que variam em intensidade e impacto de acordo com nossas histórias de vida e percepções pessoais. A ideia de que “atraímos pessoas com o mesmo nível de trauma” pode, muitas vezes, levar a uma superestimação ou subestimação do próprio trauma, distorcendo a forma como nos relacionamos com os outros. Ao invés de buscar uma correspondência de traumas, o foco deveria ser em desenvolver habilidades de empatia, resiliência e adaptação, que permitam a construção de relações saudáveis e mutuamente benéficas, independentemente do histórico emocional de cada indivíduo.

Em conclusão, enquanto a empatia entre pessoas que compartilham experiências difíceis pode ser uma força poderosa, a crença simplista de que atraímos pessoas com o mesmo nível de trauma emocional pode limitar a compreensão da complexidade das relações humanas. A psicologia sugere que o ambiente, as escolhas conscientes e a flexibilidade cognitiva desempenham papéis cruciais na formação de relacionamentos funcionais. Ao superar crenças limitantes, podemos cultivar conexões mais saudáveis e enriquecedoras, que promovem o crescimento pessoal e coletivo.

1 Comentário

  1. O trauma emocional pode atrair algumas pessoas , mas a bondade sentimental e de coração pode atrair mais. E por mais , todos diferentes mas todos iguais !

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