Em meio ao ritmo frenético da vida moderna, muitos de nós nos encontramos vivendo no piloto automático, como se estivéssemos simplesmente passando pelos dias, sem realmente vivê-los plenamente. Esse estado de existência inconsciente pode se tornar tão arraigado que perdemos de vista a beleza da vida e adiamos a busca pela felicidade, como se ela fosse algo reservado para um momento futuro. No entanto, essa busca pela consistência e previsibilidade tem suas desvantagens, e é fundamental compreender como a automação de nossas vidas afeta nossa realização pessoal e nosso senso de propósito.
**A Busca Pela Consistência**
Naturalmente, temos uma tendência a buscar consistência em nossas vidas, onde nossas crenças e valores se alinham harmoniosamente. Nossos cérebros preferem a sensação de familiaridade, e eles trabalham arduamente para manter as coisas como esperamos. Quando tudo está de acordo com nosso quadro mental e nos encontramos em situações familiares, nosso cérebro se sente confortável em operar no modo automático. Isso ocorre porque, quando tudo se encaixa e não há surpresas, experimentamos menos desconforto interno. Passamos boa parte de nossas vidas nesse estado de conforto, mas esse conforto tem suas consequências.
**O Preço da Automação**
Para manter o estado de piloto automático, nosso cérebro precisa de inputs externos relativamente constantes. Em termos simples, isso se traduz em uma vida em que preferimos saber como as coisas serão e seguimos os mesmos padrões. As situações e experiências que encontramos se encaixam em nosso mapa mental e são arquivadas sem muita atenção. É por isso que semanas podem parecer que passam em um piscar de olhos – há pouco a ser notado ou profundamente considerado.
Seguimos as mesmas rotinas, tomamos os mesmos caminhos, vemos as mesmas pessoas, envolvemo-nos nos mesmos comportamentos, sem realmente olhar para cima e pensar no que queremos da vida. Há mérito na familiaridade, mas ela também pode nos afetar negativamente de maneiras sutis. É como dirigir por uma rota conhecida; é tão fácil seguir o caminho que podemos parar de prestar atenção ao que está ao nosso redor. Sabemos exatamente para onde estamos indo e sempre acabamos no mesmo lugar.
**A Disrupção do Status Quo**
No entanto, quando as coisas não acontecem exatamente como esperamos ou quando somos forçados a fazer as coisas de maneira diferente, somos retirados do piloto automático e podemos ficar com um sentimento de desconforto. Isso cria uma pequena brecha de incerteza e nos coloca nesse espaço intermediário e desconfortável que nosso cérebro tanto evita. Estar nesse espaço pode nos fazer sentir vulneráveis, já que lidamos com a dificuldade de não sermos capazes de fazer as coisas tão facilmente ou de lidar com o desconhecido. Isso é ainda mais difícil quando nossa capacidade de lidar com mudanças está esgotada.
**Sair do Piloto Automático**
Sair do piloto automático pode ser desconcertante. Gostamos do que conhecemos, e é por isso que até pequenas mudanças podem ser difíceis de lidar (não pergunte ao meu marido como eu fico quando recebo uma nova versão de um sistema operacional de computador). Não é de admirar que possa ser um desafio ainda maior quando enfrentamos questões mais significativas.
Quando permanecemos no piloto automático, corremos o risco de viver apenas metade da vida, ignorando o fato de que esta vida é tudo o que temos. Lentamente, ao longo do tempo, nossas vidas internas e externas saem de sintonia. A vida que estamos vivendo já não corresponde ao que realmente desejamos. Podemos ficar presos em empregos que nos sugam, em relacionamentos que não satisfazem nossas necessidades. Ignoramos coisas que não estão totalmente certas e, em alguns casos, não temos mais certeza do que queremos da vida ou quem somos. Preferimos a certeza de uma possível miséria à incerteza do desconhecido.
**A Evitação da Incerteza na Vida Moderna**
Em muitos aspectos, a vida moderna se tornou uma busca incessante pela eliminação do desconforto e da incerteza. Hoje, há muito pouco que precisamos esperar (aquele desconforto do “meio termo”), e, assim, perdemos oportunidades valiosas para tolerar o desconforto e nos adaptar a ele.
Quando olhamos para como as coisas costumavam ser para aqueles de nós que cresceram nas décadas de 1970 e 1980 no Reino Unido, percebemos quão profundamente a sociedade mudou. Naquela época, tínhamos apenas quatro canais de TV, e nem sempre havia algo interessante passando. Assistíamos à TV ao vivo e tínhamos que suportar os comerciais; usávamos o Ceefax para verificar os resultados esportivos e frequentemente tínhamos que esperar uma semana pelo próximo episódio do nosso programa favorito.
Fazíamos chamadas telefônicas em telefones fixos, e se ninguém atendesse, deixaríamos uma mensagem ou tentaríamos mais tarde. Isso também significava o risco de falar com os pais ou irmãos de nossos amigos, que talvez não conhecêssemos. Enviávamos cartas e esperávamos pela resposta.
Quando nos encontrávamos com pessoas, tínhamos que planejar e seguir o plano, e se alguém se atrasasse, não tínhamos outra opção a não ser esperar. Se quiséssemos comprar algo, tínhamos que ir à cidade e procurar nas lojas. Quando comecei a dirigir, tinha que imprimir direções e ler um mapa. Muitas vezes eu me perdia e depois tinha dificuldade para encontrar o caminho de volta. Mesmo em meados dos meus vinte anos, se quisesse verificar meus e-mails, tinha que ir à biblioteca ou a um café com internet, ou esperar até o próximo dia no trabalho.
É um clichê, mas vale a pena repetir. Tudo é instantâneo agora. Nem precisamos sair de casa se quisermos algo. Se procurarmos o suficiente online, geralmente podemos encontrar exatamente o que queremos e até mesmo recebê-lo no mesmo dia. Temos centenas de canais de TV, podemos avançar pelos anúncios e assistir a episódios um após o outro; podemos acessar a internet e outras pessoas 24 horas por dia, 7 dias por semana. Podemos nos cercar de pessoas com opiniões semelhantes às nossas. Mesmo quando estamos presos no trânsito, nosso telefone pode nos dizer quanto tempo falta e oferecer uma rota alternativa. Como resultado, raramente somos confrontados com a incerteza ou desafiados em nossas opiniões.
Nós raramente estamos nesse lugar desconfortável do “meio termo”, mesmo em menor escala. Evitar mudanças e desconforto em todas essas pequenas formas e tentar manter um controle rígido sobre a vida nos dá pouca prática quando uma mudança maior acontece.
Em vez de tentar erradicar a incerteza e o desconforto (o que é fundamentalmente impossível), é muito melhor ganhar experiência com essas situações para aprender a tolerá-las e gerenciá-las, ganhando maior confiança em nós mesmos. Temos a oportunidade de ver que o desconforto desaparece quando fazemos isso, e que não precisamos ter um plano perfeito ou saber exatamente como as coisas vão acontecer para aproveitar algo.
Em última análise, é importante perceber que a mudança e o desconforto são partes naturais e inevitáveis da vida. Evitar constantemente essas experiências pode nos manter no piloto automático, impedindo-nos de viver plenamente e de crescer. Traumas e desafios podem ser uma forma de despertar para a vida que estamos vivendo e para a vida que realmente queremos. Eles nos permitem enxergar o valor nas coisas que talvez não tivéssemos notado antes e nos ajudam a construir novos mapas mentais alinhados com nossos verdadeiros desejos.
A vida não é apenas sobre evitar o desconforto, mas sobre abraçar a incerteza, crescer com ela e, finalmente, viver com autenticidade e propósito.